Review: Avowed precisou de exatos 365 dias para se firmar
A Obsidian é uma das primeiras produtoras que vem à cabeça quando pensamos em RPGs ocidentais, uma empresa cujo histórico a coloca no panteão do gênero, ao lado de Bethesda e Larian. Fallout: New Vegas, por exemplo, uma de suas principais produções, ainda é o jogo da franquia a ser superado.
Recentemente, no entanto, a Obsidian navegou por mares desconhecidos com Grounded e sua sequência, games focados em sobrevivência e na jogatina cooperativa. O estúdio repetiu o movimento com Avowed, que é um RPG de ação “light”, acessível e centrado no combate, diferente do estilo ao qual estava acostumado.
Um ano após seu lançamento no Xbox e PC, Avowed chega ao PlayStation 5 já otimizado para o modelo Pro e acompanhado de uma atualização comemorativa de aniversário, uma forma de agradecer à comunidade com novos conteúdos e melhorias substanciais de qualidade de vida. E não só isso: um ano foi tempo mais que suficiente para que a Obsidian polisse todas as arestas de performance. Sim, 365 dias fizeram de Avowed um jogo “pronto”.

Um RPG mais “light” e acessível
Se você não pôde jogar Avowed há um ano, saiba que não há momento melhor para conhecê-lo. Você, a essa altura do campeonato, já deve saber que o título não é um marco para a indústria de videogames, tampouco entra para o portfólio de melhores trabalhos da Obsidian, incluindo Fallout: New Vegas e os dois Pillars of Eternity.
Mesmo assim, existe um vínculo passional nítido entre os desenvolvedores e o projeto, um carinho que se revela por meio dos inúmeros fragmentos de história espalhados pelos vastos ambientes. A Obsidian estava inspirada e empenhada em criar a mitologia da região de Eora, e fica evidente o esforço de tentar conceber um game com um mundo mais “artesanal”.
Situada no mesmo universo de Pillars of Eternity, a jornada gira em torno da Praga dos Sonhos, uma misteriosa contaminação fúngica que assolou as Terras Férteis e vem corrompendo reinos, além da fauna e da flora. Como porta-voz do imperador Aedyr, você, com um personagem criado do zero, foi incumbido de investigar a causa da epidemia de fungos e, quem sabe, pôr fim à corrupção.
Embora traga uma premissa digna de RPGs de prestígio, a trama tem problemas de ritmo e recorre a clichês que já deveriam ter sido extintos de jogos do tipo. Para um game que se propõe e oferecer tantas opções nos diálogos, as consequências são ínfimas e parecem existir somente para render lore, sem criar vínculos significativos com os personagens. Ainda assim, há interações bem envolventes de acompanhar.

Mesmo não tendo um mundo aberto propriamente dito, os mapas têm boa escala territorial e são sempre divertidos de explorar, seja pelas recompensas, seja pelo estímulo visual. As Terras Férteis, contudo, não foram contaminadas apenas pela Praga, mas também pelo velho mal de muitos MMOs: missões secundárias que se resumem a levar e trazer itens, sem despertar interesse, servindo só como pretexto para passear e apreciar a belíssima direção de arte.
Combate surpreendentemente polido para um RPG ocidental
É no combate que Avowed consegue sustentar sua jornada de mais de 40 horas por pântanos, florestas, costas litorâneas e ruínas. Curiosamente, essa área nunca foi a especialidade da Obsidian, mas o estúdio soube evoluir e aprimorar a fórmula em primeira pessoa à la The Elder Scrolls V: Skyrim. No início, pode até parecer que as mecânicas são rasas, mas logo mostram a que veio à medida que você encontra novos equipamentos.
Mesclar o uso de feitiços elementais, lançados por varinhas e tomos mágicos, com golpes corpo a corpo de armas pesadas, dos machados às espadas, é uma delícia. Há uma complexidade (e um grau de polimento atípico, bem acima da média, vale destacar) que não se vê todos os dias nos RPGs ocidentais.

O dano elemental, inclusive, é essencial à exploração, visto que permite manipular o ambiente para alcançar áreas até então inacessíveis. Magias de fogo, por exemplo, são capazes de derreter raízes de árvores, enquanto os poderes de gelo solidificam lagos e rios para que o personagem alcance estruturas verticais e baús escondidos.
Se não fosse pela repetição excessiva de inimigos com padrões de ataque semelhantes entre si, o combate de Avowed poderia facilmente entrar para a lista dos mais engajantes entre os RPGs ao estilo Bethesda. Apesar dos pequenos deslizes, o senso de aventura épica fala mais alto quando o combate entra em cena, respaldado por um sistema simplificado, porém competente de progressão.
Soprem as velas
Para quem já jogou, há argumentos de sobra para revisitar a ilha de Eora. As adições do New Game +, do Modo Foto e de novas classes, como Anões, Aumauas e Orlans, são estímulos para quem quer ter um gostinho de coisa nova. O Espelho Mágico, por sua vez, possibilita mudar a aparência do personagem a partir do acampamento, um recurso útil para quem curte apreciar o look do boneco na visão em terceira pessoa.
Outro atrativo é que agora podemos calibrar a intensidade do desafio em elementos específicos, como combate, exploração e quebra-cabeças, tornando o seletor de dificuldade menos relevante. Essa flexibilidade injeta um novo nível de acessibilidade e permite que o jogador molde sua jogatina à vontade, seja para dificultá-la ou suavizá-la, sem que soe tão artificial.

Quanto ao desempenho, a versão de PlayStation 5 é praticamente idêntica à experiência do Xbox Series X. Os três modos originais foram preservados e portados ao console da Sony: Qualidade, com foco na resolução; Balanceado, um ponto de equilíbrio entre taxa de quadros e fidelidade visual; e, por fim, Desempenho, cuja descrição é autoexplicativa.
Ainda que o título esteja bem otimizado, admito que fiquei decepcionado com os ajustes ao PS5 Pro. Minhas expectativas estavam altas após a Microsoft oficializar melhorias ao Pro, mas, na prática, não é bem assim que a banda toca. Sem suporte ao PSSR, a tecnologia de upscaling da Sony, e sem usufruir do ray tracing, o que sobrou ao console mais parrudo foi só uma estabilidade irrisória de quadros por segundo.
Vale a pena?
Fica fácil de recomendar Avowed pelo que ele se tornou em exatos 365 dias: um RPG de ação polido como poucos, dedicado sobretudo ao combate e à exploração e com uma premissa que fisga, embora algumas de suas ideias mais ambiciosas não funcionem. Existem problemas? Vários. Mas ninguém disse que um jogo precisa ser perfeito para prender o jogador como Avowed consegue.
Nota: 80
Pontos positivos (Prós):
- Combate engajante, que incentiva experimentação;
- Senso de aventura durante a exploração;
- Rico em lore, com um mundo mais “artesanal”;
- Premissa intrigante, apesar dos clichês;
- Bem otimizado nos consoles e com textos em português.
Pontos negativos (Contras):
- As escolhas nos diálogos não têm consequências realmente impactantes;
- História com problemas de ritmo e conversas prolixas;
- Missões secundárias desinteressantes.
Uma cópia de Avowed foi gentilmente cedida pela Microsoft para o propósito de análise no PS5 Pro. O jogo também está disponível para Xbox Series S|X e PC.





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