Mudanças climáticas impõem novo cenário ao agro e exigem ações imediatas dos municípios gaúchos
O impacto das mudanças climáticas no agronegócio foi a temática que abriu o Seminário Municipalismo em Foco, realizado em Imbé nesta quarta-feira (29/04). O painel, conduzido pela Emater/RS-Ascar e Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR), trouxe um panorama claro: o campo gaúcho vive um momento de transformação. Além das demandas por produtividade sustentável e renovação geracional, o maior desafio atual é a adaptação às mudanças climáticas, que já impactam diretamente a produção e a vida no meio rural.
Os dados apresentados pelo presidente da Emater, Claudinei Baldissera, mostram a dimensão do problema. Eventos extremos têm atingido diferentes regiões do estado com intensidades variadas, exigindo respostas regionalizadas e cada vez mais técnicas. Sistemas de monitoramento apontam recorrência de estiagens e eventos severos, evidenciando que o risco climático deixou de ser exceção para se tornar parte da realidade dos municípios.
O impacto já é mensurável: somente em 2024, 405 municípios relataram perdas de fertilidade do solo causadas por erosão hídrica, afetando mais de 2,7 milhões de hectares. Um cenário que compromete, segundo Baldissera, não apenas a produção, mas também a segurança alimentar e a sustentabilidade econômica das comunidades rurais.
Diante disso, a atuação técnica ganha protagonismo. A Emater/RS-Ascar estruturou uma estratégia em quatro etapas, que vai desde a garantia da sobrevivência das famílias até ações permanentes de adaptação e resiliência. Entre os pontos centrais estão o levantamento de perdas, o acesso a políticas públicas e a implementação de soluções de recuperação e mitigação climática.
Outro destaque é o foco em sistemas agroalimentares e no fortalecimento de públicos estratégicos, como agricultores familiares, mulheres, jovens e médios produtores. A integração entre esses atores é apontada como essencial para garantir desenvolvimento rural sustentável e maior capacidade de resposta às crises climáticas.
“O futuro da agricultura gaúcha depende da capacidade de planejamento, investimento e articulação entre municípios, Estado e instituições técnicas”, finalizou Baldissera.
O engenheiro agrônomo da SDR, Eduardo Oslaj, trouxe um olhar prático sobre a operacionalização de programas e políticas públicas voltadas ao desenvolvimento rural. Ao apresentar os dados de convênios, parcerias e contratos firmados em 2026, ele evidenciou o volume de recursos já mobilizados por meio de consultas populares, emendas parlamentares e financiamentos via FEAPER. Nesse contexto, chamou atenção para um ponto estratégico aos gestores municipais: o calendário eleitoral impõe restrições e prazos específicos para a formalização dessas parcerias, exigindo planejamento antecipado por parte das prefeituras para garantir o acesso aos recursos.
A apresentação também detalhou o programa Desenvolve RS Rural, que reúne linhas de financiamento voltadas ao fortalecimento da agricultura familiar, incluindo apoio a povos e comunidades tradicionais, agroindústrias e cooperativas. Os investimentos contemplam desde a estruturação produtiva até iniciativas voltadas ao uso da água e à ampliação da capacidade produtiva no campo.
As feiras da agricultura familiar demonstram na prática a capacidade de geração de renda dos municípios. Em 2025, foram realizadas 139 feiras, com investimento de R$ 14 milhões e retorno de R$ 46 milhões em faturamento. “Os números que reforçam o papel dessas iniciativas no fortalecimento da economia local”, ressalta.
Ao abordar a Operação Terra Forte, Oslaj apresentou o marco normativo do programa, instituído por lei estadual e regulamentado por decreto, além da estrutura de governança que orienta sua execução. O financiamento é realizado por meio do FUNRIGS, dentro do eixo de resiliência do Plano Rio Grande, com atuação integrada entre a Secretaria de Desenvolvimento Rural, a Emater/RS-Ascar e instituições financeiras.
O programa prevê um investimento robusto de R$ 903 milhões, com foco na recuperação socioprodutiva e ambiental e no aumento da resiliência climática da agricultura familiar, beneficiando diretamente milhares de produtores em todo o estado.
Ambos painelistas evidenciaram dois pontos centrais para os gestores públicos: não há desenvolvimento municipal sem uma estratégia clara de adaptação à mudança climática. Porque, a agricultura do amanhã começa com as decisões que tomamos hoje. E o acesso a políticas públicas depende cada vez mais de organização, planejamento e capacidade técnica para estruturar projetos dentro dos prazos e exigências legais.
O Seminário Municipalismo em Foco recebe patrocínio de Banrisul, BM Soluções, Badesul, BRDE, CEEE Equatorial, Corsan, Governança Brasil e Priori. O evento também conta com o apoio da Prefeitura de Imbé, Amlinorte, Planalto, Emater, Secretaria de Desenvolvimento Rural do RS, Banco do Brasil e Caixa.




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