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Horizontina,02/10/2026

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Combate à desinformação no digital é mais difícil do que parece

manualdousuario.net
Combate à desinformação no digital é mais difícil do que parece

Costumo ignorar o grupo do condomínio no WhatsApp. (É um ambiente pesado.) Dia desses, na prévia da mensagem mais recente que aparece na lista de conversas, vi que havia um link do Aos Fatos, publicação especializada em verificar conteúdos virais — e, em geral, falsos. Ok, a minha curiosidade foi fisgada.


O link fora enviado em resposta à informação, compartilhada por um condômino em um *.jpg desgastado, de que o voto nas eleições do próximo domingo (4/10) servirá de prova de vida automática junto ao INSS.


Imagem viral que informa: “APOSENTADOS QUE FOREM ÀS URNAS EM OUTUBRO: O VOTO SERVIRÁ DE PROVA DE VIDA JUNTO AO INSS. FATO QUE INFELIZMENTE NÃO ESTÁ SENDO DIVULGADO PELA IMPRENSA!”
A fatídica imagem. Clique para ampliá-la.
Além da identidade visual questionável, havia outros sinais comuns a conteúdos falsos:



  • A urgência: “Divulgue para um amigo!”

  • O suposto silêncio da imprensa: “Fato que infelizmente não está sendo divulgado pela imprensa!”


A imagem aponta como referência a portaria do INSS 1.408/2022. Nisso, ela está correta:


Art. 2º. Serão considerados válidos como prova de vida realizada, dentre outros, os seguintes atos, meios, informações ou base de dados:


[…]


VII. Votação nas eleições;


Outra moradora contestou a informação. Ela jogou a imagem no Google e a IA respondeu que a informação era falsa (grifo do original):


A informação de que o voto nas eleições serve automaticamente como prova de vida para o INSS é falsa ou imprecisa quanto à sua aplicação prática imediata por meio de um aviso oficial da Justiça Eleitoral.


A resposta gerada por IA é pautada por vários veículos conhecidos e confiáveis: Aos Fatos, Reuters, Uol Notícias e Voz das Comunidades.


O print da resposta do Google (abaixo) foi enviado com o link do Aos fatos, aquele que chamou a minha atenção.


Print de resposta da IA do Google: “A informação de que o voto nas eleições serve automaticamente como prova de vida para o INSS é falsa ou imprecisa quanto à sua aplicação prática imediata por meio de um aviso oficial da Justiça Eleitoral.”
Está certo disso, Google?

Ocorre que a matéria é de setembro de 2024. Intitulada “Voto ainda não é usado como prova de vida para o INSS”, ela classifica a informação como “não é bem assim”, trazendo a mesma imagem que apareceu no grupo:


Diferentemente do que é afirmado por publicações nas redes sociais, o voto nas eleições ainda não está sendo usado como prova de vida para o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). Embora isso esteja previsto desde 2022, ainda não há solução tecnológica que permita o cruzamento de dados entre o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e o INSS.


Passadas algumas horas, uma terceira condômina retrucou com links do TSE e do governo federal que afirmam que, sim, o voto em 2026 será válido como prova de vida.


***


Decidi contar essa história porque foi uma super reviravolta digna de capítulo final da novela das nove e, principalmente, porque é um ótimo exemplo do desafio no combate à desinformação no digital.


Afinal, a imagem viral, que em 2024 era informação falsa, tornou-se verdadeira em 2026. Falo da mesmíssima imagem. Ela teve o sentido alterado por circunstâncias alheias.


Que Aos Fatos seja uma personagem da história é mero acaso, mas dos bons acasos. Eles fazem um trabalho incrível e a informação da matéria segue correta, mas alguém que a lesse hoje sem se atentar à data da publicação e não tivesse a curiosidade de aprofundar a pesquisa para saber se algo mudou de dois para cá, estaria mal informado. Como a minha vizinha.


Vamos reconstituir os eventos:



  1. A condômina #2 desconfiou de uma informação divulgada em um grupo de WhatsApp.

  2. Diante da dúvida, fez o que alguém deveria fazer, ou seja, foi pesquisar.

  3. A pesquisa retornou uma resposta gerada por IA, que afirmava categoricamente que a informação era falsa, dando como fontes várias publicações legítimas e com alto nível de confiança. No mínimo, deu-se ao trabalho de copiá-lo para enriquecer a prova de que a informação era falsa. Talvez tenha até lido a matéria.

  4. E, ainda assim, tendo feito tudo que se esperaria de alguém em dúvida, acabou induzida a erro.


A intromissão da IA do Google só piora o problema. Aos Fatos chamou a atenção a tal detalhe no posicionamento enviado por Marcela Duarte, diretora de inovação, a pedido deste Manual (leia a íntegra da nota no final da matéria):


Aos Fatos lamenta que alguém tenha sido induzido a uma interpretação equivocada a partir de uma resposta errada produzida por um modelo de inteligência artificial generativa usando uma checagem nossa feita no contexto das eleições de 2024. Esse é o tipo de erro sobre o qual alertamos reiteradamente desde a popularização desse tipo de ferramenta.


A entropia informacional da internet dificulta cada vez mais a busca pela verdade. Se em casos como este, em que a verdade é bem definida — pois questão binária (sim ou não) —, o esclarecimento é difícil, só nos resta imaginar ou relembrar o desafio em questões subjetivas, com mais nuances ou até sem resposta certa. Ou ainda, as que apelam ao emocional, quando a razão é deturpada para se encaixar numa visão de mundo pré-definida e, por vezes, imutável.


Após o meu contato, Aos Fatos acrescentou uma nota no início da matéria de 2024 e publicou nova verificação alertando que “é falso que voto nas eleições não pode ser utilizado como prova de vida do INSS”.


***


A íntegra da nota que Aos Fatos enviou ao Manual do Usuário:


Aos Fatos lamenta que alguém tenha sido induzido a uma interpretação equivocada a partir de uma resposta errada produzida por um modelo de inteligência artificial generativa usando uma checagem nossa feita no contexto das eleições de 2024. Esse é o tipo de erro sobre o qual alertamos reiteradamente desde a popularização desse tipo de ferramenta.


Gostaríamos de destacar que os conteúdos do Aos Fatos são protegidos por direito de propriedade intelectual, conforme consta no item 8 dos Termos de Uso do site do Aos Fatos. Há uma especificação técnica no robots.txt do site do Aos Fatos na tentativa de bloquear os crawlers de IA – muito embora saibamos que essa medida tenha apenas efeito de alerta.


O Aos Fatos dispõe de site, redes sociais e uma série de ferramentas proprietárias em que podemos garantir a idoneidade e a correção dos conteúdos produzidos e entregues à nossa audiência. Nosso chatbot Fátima é treinado para compreender que contexto e data importam e, portanto, prioriza respostas com datas relacionadas à pergunta feita pelo usuário da ferramenta, minimizando, assim, a chance de respostas erradas.


Por fim, reiteramos que o Aos Fatos é uma organização jornalística guiada pelo papel social do jornalismo de informar a população com qualidade. É por este motivo que estamos sempre abertos a trabalhar com parceiros que busquem aprimorar suas ferramentas com o objetivo de bem servir seus leitores. Além disso, publicamos uma checagem esclarecendo que, a partir das eleições 2026, é verdade que o voto pode ser usado como prova de vida no INSS. Por fim, vale lembrar que Aos Fatos integra a coalizão Fato ou Boato do Tribunal Superior Eleitoral, de combate à desinformação eleitoral.




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