A papelada da Anthropic para o IPO: Desastre em números
A Anthropic está planejando uma abertura de capital (IPO) e protocolou o rascunho do prospecto (S-1) em junho. Esse rascunho circulou entre os investidores no mês passado. E vazou para a Reuters, que o dissecou em três matérias.
A situação financeira da Anthropic é tão ruim quanto se imaginava.
A receita real em 2025 foi de US$ 4,6 bilhões. Só as despesas operacionais somaram US$ 12,65 bilhões, o que dá um prejuízo operacional de US$ 8 bilhões. Eles gastaram US$ 2,75 para cada dólar que entrou.
E mesmo esse número de receita está um pouquinho maquiado, se a gente seguir à risca os princípios contábeis estadunidenses (GAAP):
A Anthropic contabiliza como receita o valor integral dos contratos de marketplace — acordos de venda em que os clientes compram acesso ao Claude por meio do marketplace de um provedor de nuvem — porque ela define os preços e entrega o serviço, e registra a comissão das plataformas como custo de marketing.
A Anthropic lista US$ 518 bilhões em acordos assumidos para os próximos dez anos. Em 80% deles, não dá para dar para trás. Dá para honrar mais de US$ 400 bilhões em obrigações com apenas US$ 5 bilhões de receita? Não estou convencido.
Esse total de US$ 518 bilhões em obrigações inclui US$ 111 bilhões com o Google, US$ 110 bilhões com a Amazon e US$ 31 bilhões com a Microsoft. Tem ainda US$ 161 bilhões em arrendamento de equipamentos com a Broadcom, que não podem ser cancelados — e até US$ 84 bilhões em máquinas da Nvidia para instalar no espaço que a Anthropic aluga da xAI.
A seção de fatores de risco ocupa cerca de um terço do S-1. A Anthropic inclui os riscos existenciais de a IA nos transformar todos em clipes de papel num documento feito para investidor sério, mas a Anthropic fez tanta propaganda da sua suposta IA assassina que não dava mesmo para deixar isso de fora.
Também há riscos mais mundanos. Por exemplo: quase um quarto da receita da Anthropic em 2025 veio de apenas dois clientes. Eles não dizem quem são, mas 47% das vendas da Anthropic passam pela Amazon e pelo Google.
A Anthropic alerta que muitos de seus maiores clientes não estão presos a contratos de longo prazo e podem largá-la de uma hora para outra.
Todos esses números de receita e de obrigações são os que passaram por auditoria para o S-1. Repare que não são as supostas dezenas de bilhões em receita anualizada ou “run rates”, nem outros números fora do padrão e inventados que a Anthropic joga por aí sempre que pode.
Nos últimos dois trimestres, a Anthropic vem alardeando receitas “ajustadas” e dizendo que agora está no lucro. Uhul?
Umas semanas atrás, eu brincava que dava para pegar o seu melhor dia, multiplicar por 365 e chamar isso de receita recorrente anual (ARR, na sigla em inglês). Só que corre um boato de que a Anthropic fez exatamente isso — multiplicou o dia 31 de julho por 365 e chamou de ARR.
Não consigo confirmar se foi mesmo a Anthropic ou só algum investidor mais otimista, mas é por isso que existe contabilidade padronizada e que alguém deseja números auditados.
O que chama a atenção neste S-1 é a ausência de qualquer número auditado de 2026. A Anthropic deveria ter os dados, já que consegue alardear variações imaginárias. Se a precisão de receita real de 2026 fosse muito acima da de 2025, eles teriam dito.
A Anthropic precisa que a receita de IA suba muito. Não há sinal disso. E as obrigações só crescem.
A Anthropic deve fazer o IPO em meados de novembro, logo depois das eleições de meio de mandato (as “midterms”) nos EUA. Eles esperam captar algo na casa dos US$ 100 bilhões, com valor de mercado de US$ 2 trilhões. É mais de 400 vezes a receita de 2025.
Isso deixará a Anthropic grande o bastante para entrar direto nos índices de ações — como aconteceu com a SpaceX —, ou seja, quem pagará o pato são os fundos de pensão, que compram os índices. Em outras palavras, o cidadão médio estadunidense.
A boa notícia é que alguns fundos de pensão estão fugindo do oba-oba da IA. O fundo de pensão dos servidores de Nova York (New York City Retirement Systems) evita ativamente mais exposição à IA. O fundo de pensão dos professores do Texas (Teacher Retirement System of Texas) recomenda cautela.
Publicado originalmente no Pivot to AI em 1º/10/2026.





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