Famurs realiza 1º Fórum Gaúcho de Direito Municipal para orientar e qualificar gestores públicos
Com o objetivo de aproximar a orientação técnica dos municípios e promover o aperfeiçoamento da gestão local, a Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs) realizou, nesta terça-feira (25/08), o 1º Fórum Gaúcho de Direito Municipal. O evento reuniu gestores, procuradores e servidores no Auditório Alceu Collares, na sede da entidade, em Porto Alegre.
Na abertura oficial, o presidente da Famurs, Ique Vedovato, destacou que a marca da sua gestão é deixar a Federação cada vez mais próxima dos municípios e oportunizar a qualificação constante de gestores, técnicos e servidores. A iniciativa se consolida tanto pelos seminários das áreas técnicas quanto pelas parcerias com outros órgãos e entidades, visando sempre auxiliar as prefeituras a atingirem seu objetivo final: melhorar a vida das pessoas. "Apesar de privada, a Famurs tem uma função social muito grande. Não há um assunto que não seja de nosso interesse, pois tudo reflete diretamente no cidadão", destacou o presidente.
Infraestrutura social e Parcerias Público-Privadas
O primeiro painel do dia abordou o tema “Infraestrutura social, parcerias público-privadas, cidades inteligentes e contratações públicas: tendências atuais”, sob mediação do assessor jurídico da Famurs, Rodrigo Westphalen Leusin.
O advogado administrativista Rafael Maffini iniciou a exposição apresentando um diagnóstico das principais dificuldades enfrentadas pelas prefeituras: investimentos cronicamente insuficientes, custeio elevado com resultados ruins, contratos fragmentados, restrições fiscais, além da necessidade de equalizar políticas de Estado para evitar a descontinuidade político-eleitoral e contornar a baixa maturidade técnica.
Como caminhos, Maffini detalhou a infraestrutura social — que compreende saúde, educação, assistência social e moradia — como a nova fronteira do desenvolvimento público. Ele apresentou tendências de mercado, a estrutura de escopo dos projetos, questionamentos comuns dos Tribunais de Contas e elencou recomendações práticas: adotar políticas de Estado e não de governo; realizar estudos técnicos robustos; priorizar concessões administrativas; delimitar o que é delegável; estabelecer indicadores objetivos; profissionalizar o gestor de contratos; buscar parceiros de estruturação e observar rigorosamente o limite de 5% da Receita Corrente Líquida (RCL).
Na sequência, o chefe do Departamento de Parcerias e Inovação do BRDE, Marcelo do Canto, abordou a colaboração entre os setores público e privado, ressaltando a celeridade no desenvolvimento de soluções inovadoras e escaláveis. Canto apresentou cases práticos de PPPs na infraestrutura escolar e na saúde, explicando nuances contratuais. Ele ressaltou ainda que o BRDE realiza uma análise prévia detalhada com cada município para verificar a viabilidade do projeto, reforçando que o modelo de PPP não é uma solução universal para todos os problemas e que, em muitos casos, outros formatos podem ser mais adequados.
Inteligência Artificial e a transformação na Advocacia e Tributação
Sob mediação da coordenadora jurídica da Famurs, Ana Paula Ziulkoski, o painel “O processo municipal tecnológico e Inovação na Advocacia” debateu os impactos das novas tecnologias na arrecadação e na cobrança pública.
O doutor em Direito Tributário Eduardo Jobim destacou a aplicação da Inteligência Artificial (IA) no contexto da Reforma Tributária. Segundo o especialista, a mudança vai além das regras fiscais e altera a própria infraestrutura da arrecadação. Mesmo sem regulamentação específica no país, a IA oferece benefícios como prevenção de fraudes em tempo real, redução de erros via automação de dados e cálculos, desburocratização, fiscalização contínua e combate à concorrência desleal ao identificar sonegações.
Jobim alertou, contudo, para os limites do uso tecnológico: "Quando a arrecadação se torna digital e automatizada, até onde poderá ser automatizada a própria decisão tributária?". Para o advogado, é indispensável a supervisão humana e a transparência. Ele defendeu quatro camadas básicas de proteção ao contribuinte: transparência (saber da existência e finalidade do tratamento automatizado); explicabilidade (compreender os elementos que geraram o resultado); contestabilidade (poder apresentar argumentos contra a decisão); e revisão humana (garantia de reavaliação efetiva por uma pessoa). Por fim, defendeu a aprovação de uma legislação que estabeleça princípios sólidos de IA no Brasil.
O doutor em Direito Tributário Paulo Caliendo afirmou que a atual geração será a última a ter contato com processos lentos e analógicos, uma vez que as próximas já nascem integradas à IA. Em sua palestra sobre a cobrança pública, focou na eficiência, no devido processo legal e nos limites do poder algorítmico.
Caliendo apontou que os municípios precisam criar agendas normativas anteriores à implementação tecnológica e defendeu que o Rio Grande do Sul necessita desenvolver centenas de Cidades Inteligentes — inclusivas, sustentáveis e resilientes —, o que exige tributos igualmente inteligentes. Na visão do jurista, "não adianta colocar IA em uma estrutura mal organizada; a ferramenta só funciona se o setor estiver bem estruturado", sendo fundamental o esforço prévio para organizar processos internos e buscar financiamento para essa transformação.
Desafios da Responsabilidade Fiscal
Mediado por Everton Melo, procurador do Município de Imbé, o painel “Desafios da Responsabilidade Fiscal” contou com a participação do auditor de Controle Externo do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS), Jonas Faviero Trindade. Ele usou a metáfora de Ulisses amarrado ao mastro para explicar a LRF como um pré-compromisso que reduz o improviso para preservar a capacidade de decisão futura
Durante o painel, o auditor explicou o posicionamento do TCE-RS sobre temas cruciais aos gestores locais
Por fim, ao detalhar a recente "Lei do Descongela" (LC 226/2026), explicou que os seus efeitos prospectivos dispensam nova lei local caso haja dotação na LOA
Em sua conclusão, Trindade ressaltou que a responsabilidade fiscal não asfixia as escolhas públicas dos gestores, mas sim garante a solvência intertemporal necessária para que as políticas públicas sejam executadas de forma permanente
Judicialização da Saúde e o Tema 1.234 do STF
A coordenadora jurídica da Famurs, Ana Paula Ziulkoski, também mediou o painel “Judicialização da Saúde e Ressarcimento Interfederativo: a prática do Tema 1.234 do STF”, que teve como palestrante o coordenador da Área da Saúde da entidade, Paulo Azeredo Filho.
Azeredo detalhou o cenário crítico do Rio Grande do Sul e a sobrecarga financeira sobre os municípios em uma responsabilidade que deveria ser compartilhada de forma tripartite. Segundo dados apresentados, o gasto próprio municipal em saúde praticamente dobrou entre 2020 e 2025, saltando de R$ 5,3 bilhões para R$ 10,3 bilhões, enquanto o gasto hospitalar cresceu 140%. Nos últimos dez anos, o estado perdeu 420 leitos, enfrentando um aumento expressivo na demanda reprimida por consultas e cirurgias.
Para conter a escalada de processos judiciais, o coordenador apontou a necessidade de regulação eficiente, revisão dos programas atuais e organização dos fluxos, além do estabelecimento de uma mediação permanente entre a Saúde e o Sistema de Justiça. Azeredo também orientou os gestores sobre a cobrança do Ressarcimento Interfederativo por medicamentos fornecidos por ordem judicial — via sistema InvestSUS no âmbito federal e pelo sistema PROA/SEI no âmbito estadual. Por fim, recomendou a revisão de contratos e a união regional dos municípios para defender as finanças locais.
Improbidade Administrativa após o julgamento do STF
O painel “Improbidade Administrativa após o Julgamento das ADIs pelo STF 2026” reuniu o promotor de Justiça e coordenador do CAO Cível e do Patrimônio Público do MPRS, Cassiano Pereira Cardoso, e o assessor jurídico da Famurs, Rodrigo Westphalen Leusin.
Cassiano Cardoso enfatizou a exigência do dolo como filtro central da lei, esclarecendo que meras ilegalidades não configuram improbidade
Já Rodrigo Westphalen Leusin destacou os reflexos práticos das decisões do STF para as procuradorias municipais
Compras públicas expressas e o Sistema Sicx
Encerrando o evento, o consultor jurídico da Confederação Nacional de Municípios (CNM) em Direito Administrativo, Mártin Haeberlin, apresentou o painel “Compras públicas com Sicx: presente ou futuro?”. Haeberlin provocou o público ao avaliar que o regime atual de compras vive uma digitalização de processos burocráticos, e não necessariamente de tecnologia.
O especialista explicou o funcionamento do Sicx, um sistema de compras expressas previsto na Lei nº 14.133/2021. Ele contextualizou as três hipóteses clássicas de credenciamento — contratação paralela e não excludente (ex: oficinas de frota e leiloeiros); seleção a critério de terceiros (ex: exames laboratoriais e uniformes); e mercados fluidos (ex: combustíveis e passagens aéreas) — para apresentar o Sicx como uma quarta hipótese.
Haeberlin reforçou que o Sicx não é uma nova modalidade de licitação, mas sim de credenciamento em ambiente digital para contratação direta por inexigibilidade. Nele, o fornecedor se credencia uma única vez e oferta permanentemente, permitindo ao município comprar bens e serviços comuns padronizados conforme a necessidade, com publicação automática no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP).
Por fim, apresentou a plataforma gratuita de marketplace desenvolvida pela CNM (o e-compras CNM) e destacou que o modelo traz maior eficiência, celeridade, melhores preços, transparência e auditoria contínua para as contratações públicas locais.
As fotos do evento estão disponíveis em flic.kr/s/aHBqjD3fyF





COMENTÁRIOS